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    Diálogos ABERT: A presença e o presente da radiodifusão

    Nosso diálogo se inicia com uma pergunta fundamental: qual é o futuro da radiodifusão? Não há bola de cristal para tanto, nem tecnologia capaz de prever os rumos absolutos da nossa comunicação. O grande segredo, na verdade, está bem diante dos nossos olhos: basta apenas sensibilidade para enxergá-lo. O futuro nada mais é do que uma projeção natural do hoje presente. Ele é essencialmente a presença.

    Não há dados estatísticos que mensurem com precisão exata, nem discussão teórica que se sustente de forma isolada, diante daquilo que é o óbvio, ou que, pelo menos, deveria ser. A importância de um dado pode, por um lado, ser certeira e balizadora em relação a um caminho seguro a ser seguido; mas, por outro lado, frequentemente engessa alternativas e inviabiliza rupturas criativas possíveis. Falo das contraprogramações, ousadas e estratégicas, de uma emissora diante da sua concorrência direta. Quando nos prendemos apenas aos algoritmos, corremos o risco de esquecer a flexibilidade e a intuição humana que fazem o mercado girar.

    Certa vez, conversando com o Boni, ele me disse uma coisa que nunca mais esqueci: “o futuro da televisão está no conteúdo bem feito”. É exatamente isso. Lembro-me de que, naquela época, ainda não havia tido o grande boom do streaming, nem mesmo o desabrochar das discussões recentes sobre a TV 3.0. O que se viu depois é apenas o reflexo do fato de que muitos voltaram seus olhos exclusivamente para a infraestrutura e tecnologia, acabando por esquecer o principal: a importância inegociável do “recheio do bolo”.

    Podemos analisar bem esse exemplo quando falamos sobre geografia do som proporcionada por ferramentas como o Dolby Atmos. O verdadeiro encanto não está nas caixas acústicas ou nos cabos da tecnologia, mas sim na sensação pura de experienciar um áudio imersivo, que nos aproxima e faz com que nos projetamos para o outro lado da tela, mergulhando de cabeça no universo sonoro ali produzido.

    A maior das interatividades já existe na radiodifusão desde o seu princípio, tanto nacional quanto mundialmente. As letras dos livros, jornais e revistas ganharam voz, emoção e interpretação. Isso fez com que o rádio e a televisão caíssem definitivamente no gosto do público massivo. E não foi o aparelho em si, mas foi justamente a sensação contínua de proximidade, de estar perto. Foi o calor humano constante de uma eloquente transmissão esportiva no rádio, ou a sensação imersiva de sentir o calor e a secura implacável de um sertão árido nordestino durante uma produção audiovisual sobre o cangaço.

    Essa coisa mágica que nos toca, que mexe no ponto mais profundo da nossa emoção, é o que nos envolve numa história bem contada. É o conteúdo que nos fisga de forma única, num fluxo que nos faz querer cada vez mais, de forma interativa e até multiplataforma. Emoção proporcionada é psicologia aplicada em estado puro e, ao mesmo tempo, o grande gatilho para ações que extrapolam os limites das telas e dos alto-falantes: trata-se da experiência humana. 

    Se aquele conteúdo produzido, fruto de tanto esforço das equipes, não conduziu o espectador para uma reflexão íntima, para um momento de prazer ou até para a criação de um espírito crítico ou educacional, é porque a obra falhou na sua raiz. Não atraiu, não refletiu, não emocionou e, muito menos, deu a valiosa opção de o espectador escolher. A interatividade sempre foi, é e sempre será, essencialmente, a nossa presença.

    De nada adianta ter um exército numeroso, equipamentos caríssimos, uma estratégia de guerra mercadológica impecável e, simplesmente, não explicar aos combatentes a quem, quando, como e onde eles devem atacar. Por essa razão, programas de baixa audiência, tanto no rádio quanto na TV, são exatamente como exércitos inertes: sem comando claro, sem propósito estabelecido e sem poder de atração. E se a concorrência faz o dever de casa com maestria, consegue arrancar um sorriso, uma lágrima sincera ou um suspiro no sofá, ela inevitavelmente sai na frente.

    Por isso, pense muito bem no seu storytelling. Conheça a fundo a sua cultura local, converse, fale e entenda intimamente as dores e alegrias do seu público. Depois, transforme todas essas descobertas orgânicas em dados úteis de programação e não tenha nenhum medo de ousar na criação. O “hábito”, como também destacou o Boni certa vez, é o verdadeiro segredo da audiência; porém, lembre-se de que os hábitos mudam diariamente, e os costumes se transformam de forma veloz ao sabor da evolução das novas gerações. São novas presenças, novas tendências socioculturais, que vivem e respiram em completa e constante mutação ao nosso redor.

    Nunca se esqueçam desta máxima: cada pequeno ponto decimal de audiência não é um mero número frio, nem uma simples percentagem do mercado. São pessoas de carne e osso, em sintonia coletiva. São indivíduos que, em constante movimento diário enfrentando seus próprios desafios e que abdicam de uma parte preciosa do seu dia, um tempo de vida, para acompanhar o mundo através do conteúdo sonoro e visual apresentado e criado por nós, radiodifusores. 

    Pensem profundamente sobre isso. Façam e lapidem o melhor conteúdo possível, para que sempre seja elaborado como se fosse o fruto de uma conversa gostosa, sincera e acolhedora com quem nos inspira, e, acima de tudo, com quem se importa verdadeiramente com a gente. A presença e a empatia sempre estarão no centro da tela ou ao pé do ouvido.

    Por Elmo Francfort, jornalista, professor, pesquisador, e coordenador do projeto Memória ABERT. Possui vasta experiência na área de preservação da memória de rádio e da TV, tendo trabalhado para as principais redes de emissoras de radiodifusão do país.

     

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