Nos Estados Unidos, existem profissionais ligados ao mundo das big techs que dizem: “O YouTube é um canal de TV.” A argumentação deles costuma desconsiderar a dinâmica de engajamento, a linguagem de comunicação, o modelo de negócio e o que diz o dicionário.
Essa narrativa não é neutra. Ela serve a uma estratégia do Google, que tenta deslocar sua plataforma da disputa no segmento de redes sociais para uma batalha pelo dinheiro dos verdadeiros canais de TV. Os números explicam esse movimento. De acordo com o Painel Cenp-Meios, os canais abertos e pagos receberam R$ 12 bilhões de investimento em mídia no Brasil em 2025, enquanto as redes sociais ficaram com R$ 2,9 bilhões e os vídeos na internet com R$ 992,5 milhões.
Para refutar a tese de que o YouTube é um canal de TV, o primeiro passo é consultar o dicionário. O Dicionário de Mídia e Comunicação da Universidade de Oxford apresenta dois significados para “canal de televisão”: (1) faixa de frequência do espectro eletromagnético outorgada a determinadas estações de televisão e (2) estação de televisão com identidade de marca própria que produz seu conteúdo ou o adquire de outros fornecedores. O YouTube não se enquadra em nenhum dos dois.

O fato de o YouTube ter participação relevante no consumo de vídeo em aparelhos de TV (15,3% em fevereiro de 2026, segundo o IBOPE) também não o transforma em um canal de televisão. Ainda que o aparelho receptor se chame TV, ele nunca foi determinante para definir o que significa ser um canal de TV. Se assim fosse, uma emissora de rádio automaticamente se transformaria em um canal de TV apenas porque é consumida, ainda que com imagens ao vivo do estúdio, em uma Smart TV.
Ao mesmo tempo, ouvir rádio pela Smart TV não transforma esse eletrodoméstico em um radinho, da mesma forma que um micro-ondas não vira sapateira porque alguém colocou um sapato dentro. Aparelho de TV é uma coisa, canal de TV é outra, ainda que tenham nomes semelhantes.
Um canal de TV, independentemente de como é transmitido ou por onde é visto, opera com arcabouço regulatório, códigos linguísticos, critérios de curadoria e programação, dinâmica comercial e identidade de marca próprios.
O YouTube está em outra categoria, conforme nos lembra seu histórico slogan: “Broadcast Yourself” (“Transmita Você Mesmo”, em inglês). O YouTube é uma rede social. Como é notório, apenas uma mínima parte das 360 horas de vídeos carregadas por minuto na plataforma do Google é feita por empresas ou profissionais de audiovisual. A maioria esmagadora é feita por pessoas comuns, da mesma forma que no Instagram, TikTok e outras redes sociais. A diferença é que o YouTube chama de “canal” aquilo que as outras plataformas chamam de “perfil”. Mas a dinâmica de engajamento (comentários, compartilhamentos, curtidas etc.) é a mesma.
O YouTube é um site fundado no UGC (sigla em inglês de “conteúdo gerado pelo usuário”), na recomendação algorítmica e na dinâmica típica de redes sociais. Mais de 2,7 bilhões de usuários ativos por mês sem curadoria ou unidade estética. É um mecanismo de descoberta, não de programação.
A presença de telenovelas ou telejornais dentro da plataforma não altera essa realidade. Exibir um programa de TV dentro de uma rede social não transforma a rede social em canal de TV, assim como exibir um filme pela Netflix não transforma a Netflix em sala de cinema.
A tese de que o YouTube seria um canal de TV atende a uma necessidade urgente do Google. A empresa nunca venceu no segmento de redes sociais. O Orkut morreu, o Google+ foi um fiasco, a Meta é referência incontestável e o TikTok não para de crescer. Dizer, ainda que erroneamente, que o YouTube é um canal de TV é a forma que o Google tem de tentar tirar sua plataforma de vídeos desse oceano vermelho.
Se o YouTube for visto como canal de TV, o Google pode fugir da guerra contra ByteDance, Meta e cia. e acessar os gordos orçamentos que sustentam as emissoras abertas e pagas. Também pode fortalecer sua credibilidade, já que, conforme diversos estudos apontam, as pessoas acreditam muito mais na televisão do que nas redes sociais. De acordo com pesquisa da Ponto Map/V-Tracker, 59% dos brasileiros consideram as redes sociais nada confiáveis. Em contrapartida, 75% confiam na TV paga e 69% na TV aberta.
O Google também procura transformar o YouTube no substituto, em termos de audiência, receita e relevância, do seu velho buscador, que continua representando parte importante do seu faturamento, mas está em queda livre puxada pela inteligência artificial.
E há outro ponto adicional que não pode ser ignorado. Se o Google deseja insistir na tese de que seu produto é canal de TV, então deve aceitar tudo que acompanha essa classificação. No Brasil, televisão é um serviço fortemente regulado. A TV aberta tem limitações rígidas, por exemplo, de publicidade infantil. O YouTube removerá anúncios para seguir o mesmo padrão? A legislação brasileira determina que empresas de radiodifusão tenham no máximo 30% de capital estrangeiro. O Google renunciará a 70% do seu negócio para cumprir o requisito? E como ficará a classificação indicativa? A coerência exige que um meio aceite não apenas o dinheiro e o prestígio da categoria, mas também as obrigações que a acompanham.
YouTube é concorrente indireto dos canais de TV e cresce de maneira evidente. Mas nada disso o transforma em canal de televisão. Meios se influenciam, convergem em parte de seus usos, mas não se tornam equivalentes só porque aparecem na mesma tela ou são transmitidos por tecnologias semelhantes.
Conclui-se, portanto, que essa agenda não deriva de reflexões técnicas, mas de uma sanha comercial. Se ela for aceita sem pensar, o mercado publicitário comprometerá sua capacidade de avaliar a eficiência de cada meio. Não se trata aqui de discutir o sucesso do YouTube, que é inquestionável, mas de alertar para o risco de se adotar uma classificação que só serve ao Google e levará agências, anunciantes e sociedade em geral a grandes prejuízos.
Por Fernando Morgado, consultor e palestrante com mais de 15 anos de experiência nas áreas de mídia e inteligência de negócios. É Top Voice no LinkedIn e tem livros publicados no Brasil e no exterior, incluindo o best-seller Silvio Santos – A Trajetória do Mito e 10 Tendências para o Rádio e a TV Aberta nas Américas (lançado pela ABERT e AIR). Foi coordenador adjunto do Núcleo de Estudos de Rádio da UFRGS. Mestre em Gestão da Economia Criativa e especialista em Gestão Empresarial e Marketing pela ESPM.
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