A diretora da Blue Engine Collaborative. Sabrina Passos Cimenti, foi a convidada do Papo ABERT desta quinta-feira (21) sobre um tema que desperta a curiosidade de imediato: “IA para o óbvio, Humanos para o único”.
Numa conversa descontraída, Sabrina falou sobre os desafios das emissoras de rádio e televisão diante da inteligência artificial.

“Essa provocação veio de pesquisas recentes e também de uma angústia que eu acho que é de todo mundo: a inteligência artificial está ao redor de todos nós, e aí surge a pergunta: onde fica o humano nisso tudo? Não existe nada escrito em pedra. Não há teoria confirmada nem estudo que consiga comprovar completamente o impacto da inteligência artificial sobre nós e sobre os nossos trabalhos. Ainda é tudo muito recente. A própria transformação digital ainda é recente”, avalia Sabrina.
Com mais de 20 anos liderando estratégias, transformação digital e redesenho de operações, Sabrina chama a atenção para o uso da tecnologia sem perder a identidade, a qualidade e a relevância do meio.
“A IA mexe com algo muito sensível para nós, especialmente para quem trabalha com mídia. Ela pode impactar produção, audiência e receita diretamente. Quero mostrar onde a inteligência artificial pode gerar valor para rádio e TV e onde ela não pode gerar valor. E não estou falando apenas de dinheiro, mas de impacto, relevância e transformação. Acredito que a IA funciona muito melhor quando fica responsável pelo que é óbvio para ela. Se algo não está óbvio, talvez não devamos deixar na mão dela. A ideia é permitir que nós, humanos, possamos investir mais tempo naquilo que é único, no que sabemos fazer melhor. O diferencial de uma emissora de rádio ou televisão nunca foi apertar botão mais rápido. Sempre teve mais a ver com confiança, presença, vínculo, contexto local e credibilidade”, pontuou.
De acordo com a especialista, “ninguém está totalmente preparado para o que vem por aí. Uma pesquisa recente da Cisco mostrou que apenas 13% das empresas se sentem realmente prontas para lidar com IA. Mais de 50% ainda se sentem limitadas e inseguras. Então, calma: está todo mundo no mesmo barco. É um desafio grande, mas também extremamente estimulante. E acho importante entender também que o jogo do alcance mudou. Durante muito tempo, tínhamos distribuição previsível: TV, rádio, site, home, redes sociais. Hoje não é mais assim. A descoberta de conteúdo acontece em plataformas diferentes, em algoritmos, grupos de WhatsApp, buscas sociais e até em chats de IA”.
“As pessoas querem velocidade, mas também estão cansadas, desconfiadas e sobrecarregadas de informação. Quanto mais conteúdo existe, mais difícil fica acreditar nele. E é aí que rádio e TV têm um papel fundamental: confiança, presença e autenticidade. As pessoas querem vozes reais”
“Esse é o grande ativo do rádio e da televisão. Hoje vivemos uma era de conteúdo infinito. Um único conteúdo pode virar texto, vídeo, gráfico, podcast, resumo, post e inúmeras adaptações. Mas quando algo se torna abundante demais, seu valor muda. Por isso, precisamos pensar: qual é o diferencial do conteúdo que produzimos? O que é vulnerável à IA? Aquilo que responde perguntas simples, genéricas, facilmente resumidas. E o que é menos vulnerável? O conteúdo local, original, opinativo, aprofundado, humano, comunitário e contextualizado. A IA consegue resumir o que já existe, mas não consegue substituir presença humana, vínculo, reportagem olho no olho e conexão real. E isso é extremamente valioso.
Para Sabrina, a conexão humana precisa fazer parte da estratégia. “Não pode ser apenas um efeito colateral bonito. Mostrar bastidores, pessoas reais, comunidade, eventos, experiências fora da tela, tudo isso cria pertencimento”.
“A IA pode ajudar muito em tarefas operacionais: transcrição, decupagem, SEO, análises de dados, propostas comerciais, resumos, cortes de vídeo e automações. Mas o julgamento editorial, a ética, a emoção, o contexto local e a criação de vínculo continuam sendo humanos. O público aceita que a IA ajude jornalistas. Mas não quer que ela substitua jornalistas. A IA pode ajudar muito. Mas a confiança, a credibilidade e a conexão continuam sendo humanas. E talvez seja exatamente isso que torne rádio e televisão ainda mais relevantes daqui para frente”.
Na conversa com a Gerente de Relacionamento com Associados e Eventos da ABERT, Juliana Toscano, Sabrina Passos deixou um conselho para o público.
“Acho que o principal é: continuem curiosos. Curiosidade é essencial. Quando deixamos de nos interessar pelas coisas, perdemos a capacidade de entender o que está acontecendo ao nosso redor. E continuem estudando. Nem tudo está no mercado. A troca humana, a sala de aula, os eventos e os debates continuam extremamente importantes. Aprender sozinho é possível, mas aprender junto continua sendo transformador”.
A íntegra do papo ABERT está disponível no YouTube da ABERT.

