Notícias

    Diálogos ABERT: Rádio Híbrido: novos caminhos para a digitalização da experiência do ouvinte

    Há mais de vinte anos fizemos testes no Brasil com tecnologias de rádio digital. A expectativa era de um salto tecnológico, um upgrade que iria inserir as emissoras no mundo digital e garantir que as programações fossem entregues aos ouvintes com mais qualidade. O conteúdo de áudio, já produzido com qualidade profissional nos estúdios, poderia ser distribuído digitalmente, superando os gargalos impostos pelos sistemas de transmissão AM e FM.

    Há mais de vinte anos fizemos testes no Brasil com tecnologias de rádio digital. A expectativa era de um salto tecnológico, um upgrade que iria inserir as emissoras no mundo digital e garantir que as programações fossem entregues aos ouvintes com mais qualidade. O conteúdo de áudio, já produzido com qualidade profissional nos estúdios, poderia ser distribuído digitalmente, superando os gargalos impostos pelos sistemas de transmissão AM e FM.

    A melhora na qualidade de áudio pôde ser percebida nas transmissões digitais das emissoras em FM. Os cliques e quedas pontuais do sinal da emissora que, no analógico, afetavam a recepção nos deslocamentos em áreas mais edificadas (resultado do efeito conhecido como multipercurso), já não tinham o mesmo impacto no digital.

    Porém, embora o áudio recebido ficasse mais “limpo”, para o ouvinte, a melhoria na qualidade era relativa. Nas músicas, a maior fidelidade do áudio no digital podia ser percebida, porém, com uma qualidade não muito distante do que se receberia no analógico – especialmente quando se está caminhando ou no carro em um ambiente urbano marcado pela presença da poluição sonora. Na programação falada, a voz pouco se beneficiava da maior fidelidade e a melhoria de qualidade percebida era ainda menor, na maioria dos casos, sem relevância.

    No entanto, a realidade para as emissoras de AM era outra. A qualidade de áudio no digital era claramente superior à do analógico e percebida como comparável a das transmissões analógicas em FM. Além disto, o digital prometia uma recepção mais limpa, superando os severos impactos do ruído radioelétrico na faixa que, em alguns casos, chegava a inviabilizar a recepção.

    Por tudo isso, o digital representava um resgate para a faixa de AM, uma oportunidade para colocar estas emissoras, muitas operando de forma vegetativa, de volta no jogo. Esta perspectiva se consolidou como uma espécie de “killer application” que serviu para movimentar e mobilizar o setor em torno do rádio digital.

    Iniciados os testes com as tecnologias, os resultados dos levantamentos de campo começaram a chegar. Medidas feitas em mobilidade, inéditas no Brasil na época, registraram o status da recepção do digital em múltiplos pontos ao longo de rotas que cortavam as áreas de cobertura das emissoras envolvidas em todas as direções. A proposta era avaliar o comportamento do sinal digital da emissora dentro da área de cobertura delimitada pelo seu contorno protegido.

    Os principais levantamentos foram realizados nas regiões metropolitanas de Belo Horizonte e São Paulo, a partir de estações de AM e FM da rede CBN. O sistema de medição utilizou como referência um receptor automotivo comercial instalado de forma convencional em um carro, reproduzindo condições típicas que seriam encontradas por um ouvinte comum.

    Os resultados da cobertura digital da FM em São Paulo se mostraram relativamente satisfatórios. Em alguns trechos, onde o sinal digital era perdido, o receptor comutava automaticamente para a recepção analógica (blend) e, em muitos casos, com uma qualidade de áudio ainda aceitável. Porém, estas oscilações entre digital e analógico eram perceptíveis e seriam um incômodo para os ouvintes. Assim, com um ganho na qualidade de áudio não tão marcante e algumas falhas na cobertura, não ficava clara a vantagem da migração para o digital no caso das FMs.

    O AM, que poderia ser o fiel da balança, apresentou outra situação. A qualidade do áudio recebido digitalmente era de fato muito superior e poderia resgatar a competitividade das emissoras. Porém, a cobertura não teve a performance esperada. Nas duas regiões metropolitanas testadas, com intensos níveis de ruído radioelétrico, o sinal digital foi bloqueado em várias áreas. E, diferente do FM, ao fazer o blend para a recepção analógica, a qualidade do áudio era muito ruim ou sequer tinha inteligibilidade.

    Restava então avaliar se, em uma hipótese extrema, faria sentido operar as AMs em modo “full digital”. A transmissão com mais potência aplicada ao digital e ocupando toda a faixa do canal da emissora poderia resultar em uma cobertura melhor, entretanto, o desligamento desde o dia zero do sinal analógico deixaria toda a base existente de receptores muda.

    Foram então realizados testes adicionais com a AM de São Paulo operando em full digital e, como esperado, a cobertura melhorou. Porém, ainda persistiram áreas com falhas na recepção digital, com o agravante de não haver mais o sinal analógico como alternativa para o receptor. Nestas áreas com degradação do sinal, o receptor, simplesmente, ficava mudo.

    Com este cenário desfavorável para o AM – e sem uma motivação mais forte para as FMs – o rádio digital foi deixando de ser uma prioridade para as emissoras. Mais algum tempo se passou e o projeto de migração das emissoras do AM para o FM foi aprovado, dando uma solução (mesmo que analógica) para as dores de cobertura e qualidade de áudio que atormentavam as AMs. Isto foi o golpe final no interesse pelo rádio digital.

    Bem, isto até o dia em que alguns radiodifusores começaram a se fazer perguntas do tipo: como transmitir textos e imagens associados à programação; como ter analytics da audiência em tempo real; como o receptor poderia chavear para o streaming da emissora em áreas de sombra da estação. Em outras palavras, como implementar uma transformação digital para que a emissora ganhe competitividade e possa oferecer ao ouvinte uma experiência compatível com o contexto atual de consumo online de conteúdo.

    E, como o rádio digital tem algumas interseções com estes temas, ele voltou a ser lembrado. Porém, resumindo em poucos bullets o que seria uma longa argumentação, ele não seria uma solução pelos seguintes motivos:

    • Apesar dos avanços nos últimos anos, as deficiências de cobertura e qualidade de áudio ainda persistem e são um fator limitante nas tecnologias que transmitem o sinal digital na mesma faixa (AM ou FM).
    • Tecnologias como o DAB, que utilizam outras faixas de frequências não são uma alternativa no caso brasileiro por indisponibilidade de espectro.
    • A janela de oportunidades foi perdida. A digitalização demanda um projeto articulado, investimentos, infraestrutura e uma ampla base de receptores. Em outros países, o processo de construção deste ecossistema se estendeu por 10 anos ou mais com alguns casos ainda sem atingir um nível adequado de penetração de receptores. Neste horizonte de tempo, o esforço de digitalização do rádio poderia ser atropelado pela disseminação do 5G e da DTV.
    • Apesar de poder oferecer uma experiência visual mais rica para o ouvinte, o rádio digital continuaria sendo unidirecional e limitado em suas funcionalidades. Sem o canal de comunicação de retorno, ele não poderá oferecer muitos dos recursos comuns no mundo digital como interações, personalizações, analytics, marketing direcionado, integração com redes sociais etc.

    Então, se o rádio digital não é uma opção, qual seria a alternativa? A resposta pode estar em um modelo de operação que já está presente no mercado internacional há alguns anos, mas que ainda não foi bem explorado no Brasil: o rádio híbrido ou rádio conectado.

    Os dispositivos de rádio híbrido combinam a recepção dos sinais de RF transmitidos pela emissora com a conexão bidirecional de comunicação da internet. O sinal captado do ar pode estar em qualquer formato, analógico ou digital, incluindo transmissões em FM, AM, DRM, HD Radio ou DAB.

    Para o ouvinte, o resultado é uma experiência enriquecida de consumo de mídia, compatível com as suas expectativas rotineiras no contexto digital, onde o áudio da programação passa a ser complementado com elementos visuais, conteúdos adicionais, personalização, interatividade e outras funcionalidades.

    Para o radiodifusor, o modelo significa uma revitalização do seu negócio e um ganho de competitividade, que contribui para: enriquecer e agregar valor ao produto oferecido aos ouvintes; viabilizar novas oportunidades de monetização, obter dados da audiência em tempo real e aumentar a percepção de valor da marca da emissora que passaria a ocupar um lugar ao lado das mídia digitais.

    Entretanto, o rádio híbrido não é um projeto de uma única emissora. Para se disseminar e ter sucesso, é preciso uma ação coletiva e articulada dos radiodifusores. Além disso, existem várias plataformas no mercado com diferentes implementações, combinações de recursos e políticas de parceria entre desenvolvedores e emissoras, formando um complexo ecossistema que inclui desde empresas de tecnologia até montadoras de veículos. Nesse contexto, torna-se fundamental compreender o papel de cada agente do ecossistema, avaliar o que cada plataforma efetivamente oferece e, a partir de uma estratégia de negócios bem definida, estruturar uma presença consistente e integrada em todas elas. Para as rádios, isto pode significar, por exemplo, a diferença entre estar acessível ou não no sistema multimídia de determinadas marcas de carro, ter ou não ter controle sobre os dados de perfil dos seus ouvintes, ter ou não controle das propriedades comerciais e oportunidades de monetização na plataforma, ter maior ou menor influência na definição das melhorias futuras e recursos da plataforma.

    Estamos em um momento de oportunidades. Ocupar este espaço e oferecer uma nova experiência digital de consumo de mídia para os ouvintes é estratégico para o rádio.

      SAF Sul Qd 02 Ed Via Esplanada Sl 101 Bl D Brasília - DF CEP:70.070-600

      Email: abert@abert.org.br

      Telefone: (61) 2104-4600

      Telefone: 08009402104

    Image
    Assuntos Legais e Regulatórios
    Image
    Tecnologia
    Image
    Comunicação
    Image
    Parlamentar

    Buscar